DO LIMITE ENTRE O CÉU E O INFERNO
Conta-se que um dia um samurai, grande e forte, conhecido pela sua índole violenta foi procurar um sábio monge em busca de respostas para suas dúvidas.
- Disse o samurai com desejo sincero de aprender: "Monge, ensina-me sobre o limite entre o céu e o inferno".
O monge, de pequena estatura e muito franzino, olhou para o bravo guerreiro e, simulando desprezo, lhe disse:"Eu não poderia ensinar-lhe coisa alguma, você está imundo. Seu mau-cheiro é insuportável. Ademais, a lâmina da sua espada está enferrujada. Você é uma vergonha para a sua classe."
O samurai ficou enfurecido. O sangue lhe subiu ao rosto e ele não conseguiu dizer nenhuma palavra, tamanha era sua raiva. Empunhou a espada, ergueu-a sobre a cabeça... e se preparou para decapitar o monge.
"Aí começa o inferno", disse-lhe o sábio mansamente.
O samurai ficou imóvel. A sabedoria daquele pequeno homem o impressionara. Afinal, arriscou a própria vida para lhe ensinar sobre o inferno. O bravo guerreiro abaixou lentamente a espada e agradeceu ao monge pelo valioso ensinamento.
O velho sábio continuou em silêncio. Passado algum tempo o samurai, já com a intimidade pacificada, pediu humildemente ao monge que lhe perdoasse o gesto infeliz. Percebendo que seu pedido era sincero, o monge lhe falou: "Aí começa o céu".
+++
Diz uma antiga lenda chinesa que um discípulo perguntou ao mestre: - Qual é a diferença entre céu e inferno? E o mestre respondeu: - É muito pequena e, no entanto, tem grandes consequências. Venha, vou lhe mostrar o inferno.
Entraram em uma casa onde havia algumas pessoas sentadas ao redor de uma grande panela de arroz. Todas estavam famintas e desesperadas. Cada uma delas tinha uma colher presa pela ponta do cabo à mão, que chegava até a panela. mas os cabos eram tão compridos que elas não podiam levar as colheres à boca. O desespero e o sofrimento eram terríveis.
-Venha - disse o mestre, passado um instante. - Agora vou lhe mostrar o céu. Entraram em outra casa, idêntica à primeira. Ali também havia uma panela de arroz, algumas pessoas e as mesmas colheres compridas, mas todos estavam felizes e alimentados.
Disse o discípulo: - Não entendo porque estão muito mais felizes que as pessoas da outra casa, se têm exatamente o mesmo? - Não percebeu? - sorriu o mestre. - Como o cabo da colher é muito comprido, é impossível levar a comida à própria boca com ela. Mas aqui eles aprenderam a alimentar uns aos outros.
Texto extraído do livro "Nietzsche para estressados", do autor Allan Percy
+++