O GANSO E O CAVALO
( da concentração x a dispersão )
Um ganso que estava arrancando capim num campo se sentiu ofendido com a presença de um cavalo que se alimentava perto dele; e, num tom sibilante, falou:
“Sou certamente um animal mais nobre e perfeito do que você, pois todo âmbito e extensão das suas faculdades se limitam a um elemento. Eu posso pisar no solo, como você; além disso, tenho asas com as quais posso me alçar aos ares; e quando me apraz, posso nadar em tanques e lagos e me refrescar nas águas frias. Tenho diferentes poderes como um pássaro, um peixe e um quadrúpede.”
O cavalo, resfolegando com desdém, retrucou:
“É verdade que você habita três elementos, mas não faz bela figura em nenhum deles. Você voa, de fato, mas o seu voo é tão pesado e deselegante que você não pode se considerar no mesmo nível da cotovia e da andorinha. Você pode nadar na superfície das águas, mas não pode viver nelas como os peixes; você não pode encontrar comida naquele elemento, nem deslizar suavemente no fundo. E quando você caminha, ou melhor, bamboleia no chão, com seus pés largos, seu pescoço comprido esticado, assobiando para quem passa, você provoca risos. Eu confesso que fui feito para andar só no chão. Como sou gracioso! Como meus membros são bem torneados! Como todo meu corpo é bem acabado! Como sou forte! Como é surprendente a minha velocidade! Prefiro estar limitado a um elemento e ser admirado por isso, do que ser um ganso em todos os outros!”
Fábulas de Boccaccio e Chaucer, Dr. John Aikin, 1747-1822
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Cuidado para não dissipar os seus poderes; lute constantemente para concentrá-los. O gênio pensa que pode fazer tudo que vê os outros fazerem, mas vai se arrepender como um tolo de tanto desperdício.
Johann Von Goethe, 1749-1832
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A melhor estratégia é ser sempre muito forte; primeiro, em geral, depois no momento decisivo....Não há lei de estratégia melhor e mais simples do que manter as próprias forças concentradas....Em resumo, o primeiro princípio é: aja com a máxima concentração.
Da guerra, Carl Von Clausewitz, 1780 – 1831
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INTERPRETAÇÃO
O Mundo está passando por uma epidemia de divisões cada vez maiores – dentro dos países, grupos políticos, famílias, até indivíduos. Estamos todos num estado de total distração e difusão, mal conseguimos colocar nossas cabeças numa direção e já estamos sendo puxados para centenas de outras. O nível de conflito no mundo moderno está mais alto do que nunca, e já nos acostumamos com isso.
Preserve suas forças e sua energia concentrando-as no seu ponto mais forte. Ganha-se mais descobrindo uma mina rica e cavando fundo, do que pulando de uma mina rasa para outra – a profundidade derrota a superficialidade quase sempre.
A solidão é uma forma de nos retirarmos para dentro de nós mesmos, para o passado, para formas mais concentradas de pensamento e ação. Como escreveu Schopenhauer:
“O intelecto é um medida de profundidade, não de superficialidade”.
Napoleão conhecia o valor de concentrar suas forças no ponto fraco do inimigo – era o segredo do seu sucesso nos campos de batalha. Mas a sua força de vontade e a sua mente também estavam moldados segundo esta noção. O propósito único, a total concentração na meta e o uso destas qualidades contra pessoas menos concentradas, pessoas distraídas – a flecha acertará sempre o alvo e conquistará o inimigo ( o objetivo ) !
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Não se pode acertar dois alvos com uma só flecha. Se a mente divaga, você não acerta o coração do inimigo. Mente e flecha têm de ser uma só. Apenas com muita concentração mental e física a sua flecha acertará o alvo, bem no coração.
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Preze a profundidade mais do que a superficialidade. A perfeição está na qualidade, não na qualidade. O superficial não sai da mediocridade, e a desgraça dos homens com interesses amplos e generalizados é que enquanto desejam comandar tudo acabam não comandando nada. A profundidade dá fama e equivale ao heroísmo em questões sublimes.
Baltasar Gracián, 1601-1658
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Casanova atribuía o seu sucesso na vida a sua capacidade de concentrar-se num único objetivo e forçar até ele ceder. Quando esteve preso nas traiçoeiras ‘passagens’ do palácio dos doges em Veneza, prisão de onde ninguém jamais escapara, ele só pensava na fuga como seu único objetivo, dia após dia. Uma mudança de cela, que significou meses e meses de escavações inúteis, não o desencorajou; ele persistiu e acabou fugindo.
Escreveu ele mais tarde:
“Sempre acreditei que se um homem coloca na cabeça que vai fazer uma coisa, e se ele se ocupa exclusivamente disso, acaba conseguindo, por mais difícil que seja.”
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A família de banqueiros Rothschild começou humilde em um gueto judeu de Frankfurt, na Alemanha. As rígidas leis da cidade impediam que os judeus se misturassem com quem não fosse do gueto, mas os judeus tinham transformado isso em uma virtude – tornaram-se autoconfiantes e faziam questão de preservar a sua cultura a qualquer custo. Mayer Amschel, o primeiro dos Rothschild a ficar rico emprestando dinheiro, no fim do século XVIII, compreendeu muito bem o poder que advém da concentração em valores, objetivos e coesão.
Os Rothschild nasceram em uma época estranha. Vinham de um lugar que não mudava há s[éculos, mas viveram em uma era que deu origem à Revolução Industrial, à Revolução Francesa e a uma interminável série de rebeliões. Entretanto, os Rothschild conservaram vivo o passado, resistiram aos modelos de dispersão da sua era e por isso são o símbolo da lei da concentração em objetivo.
Ninguém melhor para representar isso do que James Rothschild, o filho de Mayer Amschel que se estabeleceu em Paris. Ao longo de sua vida, James assistiu à derrota de Napoleão, à restauração da monarquia Bourbon, à monarquia burguesa de Orleans, ao retorno a uma república e finalmente à coroação de Napoleão III. Durante todo esse tumulto, os estilos e as modas francesas mudavam em um ritmo implacável. Sem parecer uma relíquia do passado, James guiava sua família como se o gueto continuasse vivo dentro deles. Ele manteve viva a coesão e a força interior do seu clã. Somente com essa âncora no passado a família foi capaz de prosperar em meio ao caos. A concentração em seus valores e objetivos foi a base do poder, da riqueza e da estabilidade dos Rothschild.
COMO TUDO NA VIDA, TAMBÉM É PRECISO SABER QUANDO E COMO USAR A CONCENTRAÇÃO
Não confunda concentração em objetivo com concentração de dependência
A profundidade derrota a superficialidade quase sempre. Entretanto, às vezes, também pode ser perigosa e há momentos em que a dispersão é a tática adequada. Ligar-se a uma única fonte de poder tem um grande perigo: se a fonte secar você sofre. Foi o que aconteceu com César Bórgia, cujo poder vinha do pai, o papa Alexandre VI. O papa é que deu a César exércitos e guerras para travar em seu nome. Quando ele morreu de repente ( talvez envenenado ), César também estava morto. Tinha feito inimigos demais ao longo dos anos e agora não tinha mais a sua única proteção, o seu pai.
Finalmente, às vezes, exagerar em um único propósito pode fazer você um chato insuportável, especialmente nas artes. O pintor renascentista Paolo Uccello era tão obcecado com a perspectiva que suas pinturas chegam a parecer monótonas e falsas, enquanto Leonardo da Vinci se interessava por tudo – arquitetura, pintura, guerra, escultura, mecânica. A descentralização foi a fonte do seu poder. Mas os gênios são raros; quanto ao restante dos simples mortais, é melhor pender para o lado da profunda concentração.
O princípio da concentração funciona como recurso para evitar os adiamentos. Ao mesmo tempo, é a base da autoconfiança e do autocontrole. O princípio do hábito e o princípio da concentração combinam-se. O hábito pode ser fruto da concentração e essa pode ser fruto do hábito. A finalidade da concentração em um objetivo definido é treinar a mente para o foco. Com atenção e esforço concentrados, o hábito influencia o subconsciente, que absorve o conceito mental do objetivo traduzindo-o em sua correspondente física por meio dos mais práticos e diretos métodos disponíveis.
Percebendo ou não, todo ser humano emprega o princípio da concentração. Quem permite a permanência na mente consciente de pensamentos negativos, voltados para o medo, a pobreza, a doença e a intolerância, aplica a lei da concentração e, mais cedo ou mais tarde, seu subconsciente absorverá tais sugestões e agirá de acordo, traduzindo-as em sua correspondente física.
Texto compilado extraído de livro dos autores Robert Greene e Joost Elffers